Banda Comitatus
Como tudo começou – de 1976 a 1979
A história dos grupos de rock é quase sempre a mesma: um bando de desocupados que se junta para tocar não se sabe bem o que, para outros desocupados que não tem o que fazer. Coincidência ou não esta é a história do Comitatus. No início eram trevas: vagando pelas estradas, colégios, clubes e noites paulistanas os desocupados tentavam um lugar na noite ou no dia...valia tudo. Mas de prático, só ensaios.Julho de 1976 – Pindamonhangaba
O primeiro show, no entanto, não demorou a acontecer:
Julho de 1976 – Pindamonhangaba
A situação era mais ou menos assim: o conjunto não tinha nome, não tinha repertório, não tinha aparelhagem e muito menos competência.
Mas tinha vontade e muita animação. Com um amplificador Tremendão na pista amplificando as vozes, muito medo de fazer besteira e muito tempo afinando instrumentos, o show foi um inacreditável sucesso. Foram 14 músicas, dentre elas, Can’t Buy me Love, Nowhere Man (com uma só voz), Boys, Meu Mundo e Nada Mais, Everything I own e Rock Around Clock. O melhor de tudo: ninguém gravou, ninguém filmou, portanto esta é a versão que vale. Sucesso esse que resultou no convite a um show extra. Mas para este, era necessário um nome para divulgação.
Surgiu oficialmente o Comitatus
Alguns dias depois já tinha um nome, depois um repertório e em seguida uma razoável aparelhagem. A competência ainda era uma meta a ser atingida...até hoje.
O Calabar
Mas é a partir de 1978/79 que o Comitatus começa pra valer, tocando no Calabar, um pequeno bar na Alameda Itu, que logo se transformaria em um pequeno inferno na Alameda Itu.
1978/79
Nessa época a formação era Beto, Paulo Marcos, Cláudio “Clóvis” e Nicky. Apesar da participação temporária de Flávio Sandoval e Helder.
Eugênio, Hélio e Morita
Em 1979 Eugênio, Hélio e depois Morita se juntaram a banda. O principal de tudo foi definir o objetivo do grupo. O bando de desocupados deu lugar a um bando de aficionados e neuróticos com o insólito e pioneiro objetivo de tocar Beatles da forma mais idêntica possível. Na época foi visto como um saudosismo simplório e basbaque pelos roqueiros de plantão, que afirmavam que Beatles era coisa do passado. Porém a história iria mostrar que estavam errados.
Os anos 80
Com a decadência das discotecas, o rock ganha força na noite paulistana. Mas foi a morte de John Lennon em 1980 que mudou a cara do público roqueiro. Os beatlemaníacos surgiram de todos os lugares, assumiram seus gostos e seus ídolos e assim ficou até hoje.
O Calabar virou referência, “point”, clube. Filas se formavam na porta esperando uma oportunidade de entrar, já que a casa comportava em torno de 300 pessoas. E dá-lhe show do Comitatus em todos os cantos, dos lugares mais improváveis aos mais badalados.
Os teatros Brigadeiro e Mackenzie testemunharam grandes shows para beatlemaníacos, com o repertório sofisticado e boa produção para a época. Para o Aquárius ficou a primeira e grande experiência de se apresentar acompanhado de uma pequena orquestra de 4 metais e 4 cordas regida pelo grande músico e saxofonista Héctor Costita.
E os bares?
O Calabar foi para a Pamplona, ficou enorme e cada vez mais lotado com mais de 1.000 pessoas por sábado, apesar de caber apenas 600. O excedente era fruto de uma época sem lei, onde tudo era permitido (bons tempos). O De Repente e o Woodstock também passaram a fazer parte da agenda e o Jardins estava dominado pelo Comitatus e pelos grupos musicais, mais amigos do que concorrentes: Áries, American Graffiti, Columbia, Fantasy, Steria Coletiva, Rock Memory - que nasceu do Comitatus – e tantos outros.
Os “mega” shows e shows “mico”
A quantidade de shows exigiu a profissionalização. Era preciso escapar dos shows micados. Surge Jorge Decol, um empresário do meio artístico, fã de um quase Beatle não tão conhecido pelo grande público: Brian Epstein, o empresário. Iniciou-se a era dos grandes shows, pelo menos para o tamanho e pretensão do conjunto. Shows no Clube Sírio, nas danceterias AeroAnta e Área, no ginásio do Pacaembu, nos diversos clubes do interior e litoral – Itu, Vinhedo, Valinhos, Santos - Ilha Porchat e Campinas - deram uma nova cara para o conjunto. Mas o auge e o reconhecimento da crítica viriam no show no Shopping Center de Campinas, este sim um mega-show para 35.000 pessoas, um sucesso de público e crítica. Claro que sucessos sempre acompanham fracassos. Na excursão para Foz do Iguaçu foram realizados dois shows: o primeiro teve um público de 6 pessoas que foram embora porque se sentiram extremamente idiotas. O segundo reuniu algo em torno de 08 pessoas, mas eram as pessoas contratadas para trabalhar e mais 5 ou 6 amigos locais. O Comitatus ainda fez um mini-show e tocou 5 músicas como agradecimento aos trabalhadores, mas todos, inclusive o conjunto, se sentiram certamente ...extremamente idiotas. Valeu pelo turismo.
A formação do grupo
Os anos 80 marcaram também algumas mudanças na formação do grupo: na bateria, Beto II entra no lugar do Morita, que foi para o Japão ver se estava tudo em ordem por lá. Em seguida, foi a vez do Hélio que passou a dividir os teclados com o Elihú (não é piada pronta. Os dois tem nomes parecidos mesmo) Aversari, já que a agenda do conjunto era intensa e a social mais ainda. A outra novidade foi a entrada da cantora e backing-vocal Soraya, ampliando o repertório com clássicos de Tina Turner, Cindy Lauper e Madonna (desculpem pela última). Pudemos contar ainda com músicos e amigos que nos ajudavam nos revezamentos, casos de Eduardo Leão, Fábio Cirello e Rogério “Buddy Miles”.
Os novos rumos da década
Mas os anos foram passando e novas tendências do rock e da noite foram surgindo: chegaram os darks e góticos, chatos e desanimados, querendo ser modernos, grupos eletrônicos como o A-Ha, os diversos conjuntos de rock brasileiro e os new waves com B-52 no comando. Foi difícil decidir que caminho seguir: continuar com Beatles ou acompanhar a moda? Como o grupo nunca conseguiu decidir nada, o jeito foi tocar de tudo e ver o que acontece. A conclusão foi: o pessoal dança qualquer coisa e pode-se tocar qualquer coisa. E o Comitatus passou a fazer sucesso com Rock Lobster, Eu sou Boy, Footlose, Girls just wanna have fun, Bohemian Rapsody, e músicas do The Police, The Cure, Deep Purple, Led Zeppelin, Yes, Supertramp,..., e, claro, The Beatles. Uma salada de extremos do rock que incrivelmente dava certo.
No final da década começou a decadência das casas noturnas e o grupo sai em busca de novas alternativas.
Os anos 90
Apesar da grande apresentação no Teatro da PUC-SP, o Tuca, com metais e cordas, o início da década foi um período difícil para a banda. Sem local definido e fixo para se apresentar, sem empresário e, como sempre, sem objetivo definido, o Comitatus passou a fazer shows isolados e parecia ter chegado ao fim da linha, chegando a fazer apenas um show em 1991. A saída do Beto II provoca uma crise já que passa a ter um baterista diferente por show.
Tentando ressurgir das cinzas, o grupo reaparece com alguma força no Brithânia, ex-cine Nilo. A volta do Morita na bateria, depois de concluir que estava tudo em ordem no Japão, recoloca o conjunto no eixo, e começa a preparação de uma nova fase. Também ressurgindo das cinzas, reaparece o Calabar, agora em Moema, uma casa grande e adequada para shows, seguido pelo Woodstock e do Magical Pub, uma casa nova. Os Beatles voltam à cena, o Comitatus volta à noite paulistana e aqueles darks desaparecem em algum cemitério por aí. O cenário estava pronto para os novos rumos do Comitatus.
Século XXI
A era Liverpool
Algum especialista vai dizer que o século começa em 2001. Mas para o Comitatus não. O ano 2000 será o ano da grande virada. Após vencer o festival “Liverpool Nights” de grupos cover de Beatles promovido pelo Hotel Hilton e pela British Airways, reunindo mais de 45 conjuntos de várias partes do país, a banda inicia a era Liverpool. Apresentações marcantes nos mais diversos locais da cidade inglesa - Cavern Club, Cavern Pub, Cavern Back, Hotel Adelphi - consagrariam os quase 30 anos de estrada do Comitatus. Mas o auge viria no último dia com um empolgante show na Castle Street, tocando as músicas do álbum “Beatles for Sale” e um “grand finale” com “Bohemian Rapsody” do Queen surpreendendo 10.000 entusiasmados ingleses.
Bernie Evans e Uncle Charlie
Alguns meses mais tarde o Comitatus retorna para Liverpool para apresentações no Jacaranda, onde os Beatles começaram, e que conserva a mesma cara dos anos 60, além do simpático Bernie Evans colega de colégio de George Harrison e Paul McCartney e agora mais um amigo do pessoal do Comitatus. Nesta excursão o auge seria o show no Ferry boat do Rio Mersey, um delicioso revival com direito a canjas de Uncle Charlie, tio de John Lennon e Len Gary, integrante dos Quarymen, grupo precursor dos Beatles.
Liverpool e Abbey Road
No ano seguinte o grupo retorna para uma nova temporada na Inglaterra. Só que desta vez, além dos shows em Liverpool, o Comitatus parte para uma nova experiência: a gravação de uma música própria nos estúdios Abbey Road com direito a show improvisado dentro do estúdio para animados e deslumbrados turistas americanos. Tudo foi filmado e documentado, mas o que ninguém sabe é aonde foi parar a tal gravação. Ninguém viu e pode ser que ninguém tenha ouvido. Mas o que interessava era entrar no estúdio, tocar e gravar. O resto não importava. Só para constar, a música chama-se “Winter and Summertime“ (“Inverno e Verão”) de autoria do Beto, um bom e animado rock no estilo anos 60. Juntando com mais duas ou três músicas do grupo, completa-se o repertório de músicas próprias. Mas isto é outra história que levaria algo em torno de duas linhas para completar.
De volta ao Brasil...
O Comitatus entra na era Memphis (www.memphis.com.br), uma bela casa de shows em Moema, onde se apresenta até hoje. Shows em clubes como o Paulistano, Alto dos Pinheiros, Indiano e Paineiras também passaram a fazer parte da agenda do grupo. Mas outro destaque para a nova década foram os convites para participação em eventos corporativos. Bridgestone Firestone em Cabo de Santo Agostinho, Banco Alfa em Comandatuba, Ibef também em Comandatuba e Club Med de Itaparica, Microsoft em São Paulo, Toyota no Guarujá, campeonato de velas em Ilhabela, são alguns exemplos; abrindo um novo caminho para o conjunto, mostrando como Beatles e Comitatus ainda são garantias de sucesso. Só faltava o disco..A idéia foi gravar um disco ao vivo no Memphis. Foi um sucesso. Não de vendas é claro, mas de qualidade. Foi tão bom que o conjunto comprou todos.
Como o conjunto continuava sem saber o que fazer, a idéia foi promover a festa dos 25 anos no Bar Avenida em 2001 e dos 30 anos no Clube Paineiras em 2006 com direito a tudo de novo: metais, um repertório mais ousado, muitos convidados, muitas canjas dos ex-integrantes, familiares e muito alto astral. Dizem que em 2011 terá mais uma.
E hoje...
Com mais de 30 anos de histórias para contar, os outrora desocupados continuam ouvindo, lendo, curtindo e tocando Beatles e todas as suas variações. Tocando pelo prazer de tocar, pelo prazer de se encontrar, pelo prazer de ver os amigos de 8 a 80 anos curtindo o bom e velho rock’n’roll. Pelo prazer de saber que tem muito mais pela frente e o Show não pode parar.
Por enquanto esta é a história e está apenas começando.
Nos próximos 30 anos tem muito mais.
